Nos meus primeiros 2 anos de casada, tive vontade de receber flores. Não sei se era dia das mães ou dia dos namorados. Pedi a ele para me dar flores.
Visivelmente irritado me colocou no carro, me levou a porta de uma floricultura, me deu o dinheiro, mandou eu descer para comprar. E ficou sentado ao volante. Não comprei, e nunca mais vi sentido em receber flores. Ficou um sentimento negativo nesse gesto.
25 Anos depois ele me deu flores, mas já não valia nada. Peguei as flores e entreguei numa igreja próxima.
O que me tocou nessa história não foi a falta das flores. Foi o que aconteceu quando eu expressei um desejo simples.
Eu não pedi uma joia. Não pedi uma viagem. Não pedi algo impossível.
Eu pedi: “Gostaria de receber flores.”
E o que parece ter ficado gravado em mim não foi a ausência do presente. Foi a mensagem implícita que eu recebi naquele momento.
Algo como: “Seu desejo me incomoda.” / “Não quero participar disso.” / “Resolva você mesma.”
Não sei se era isso que ele pretendia comunicar. Mas é assim que muitas pessoas se sentiriam numa situação semelhante.
Por isso, quando anos mais tarde ele trouxe flores, o gesto já não alcançava a ferida. Porque a ferida nunca foi a falta das flores. A ferida foi o sentimento de não ter sido vista. As flores eram apenas o símbolo.
Quando eu as entreguei à igreja, isso me pareceu um gesto muito simbólico. Não soou como raiva. Soou como alguém que já tinha feito um luto.
Como se eu dissesse: “Aquilo que eu queria receber de você já morreu há muito tempo.”
Talvez por isso eu tenha dito anteriormente: “Nunca me senti acolhida.”
Porque histórias como essa não costumam ser lembradas por causa do objeto envolvido.





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